Sexo no primeiro encontro: por que não?



Sexo no primeiro encontro, transar na primeira noiteLuciana Bugni, minha amiga de colegial, fez uma ótima matéria para o caderno Dia-a-Dia do Diário do Grande ABC. Leia na íntegra (são 3 páginas, atente para a paginação pouco visível ): “De Primeira”. Ela me pediu um depoimento e escrevi:

“Muitos homens julgam como fáceis ou vagabundas as mulheres que transam no primeiro encontro. Eu não sou um deles. Ao contrário, penso que temos de ser bem maduros para realmente nos entregar na primeira noite – não apenas beijar, esfregar ou penetrar corpos. Gosto muito de transar na primeira noite. Não me sinto confortável em passar vários encontros apenas beijando, como se eu fosse um adolescente. Sinto que o amor pode ser bem mais explorado quando estamos completamente nus, quando suamos e nos acabamos juntos. Quando o toque é desmedido e a massagem irrestrita. Então, para que esperar pela segunda noite? Se eu sei que é bom e você sabe também, por que não agora?”

Além disso, ela me cita no fim do texto:

Gustavo Gitti afirma que não se trata apenas de sexo. “Podemos fazer amor logo no primeiro encontro, respirar o outro, fazer carinho. A construção da relação não fica atropelada quando o sexo acontece logo de cara. O tecer de um sonho compartilhado segue seu caminho, com ou sem sexo, com ou sem toque”.

Acho que o mesmo vale para a famosa one-night stand: quem disse que uma relação de apenas uma noite tem de ser só feita de sexo? Por que não uma one-night stand de amor, como se ambos fossem enamorados há anos? Tocar o outro como se já o conhecesse, mas sem o conhecer de fato, é uma das experiências mais gostosas que podemos ter.

E vocês? O que pensam e sentem sobre isso? Como foram suas experiências com sexo logo de cara, na primeira ou segunda noite?

P.S.: A B., do blog A Vida Secreta, também deixou sua opinião sobre o assunto na mesma matéria.


Meu corpo sobre a mente (ou Retiro de meditação)



Zafu - Meditação Zen BudistaEsta é uma continuação da série “Filosofia com o corpo” (leia “Meu corpo sobre a inveja” e “Meu corpo obre o arrependimento”).

Dedico cada palavra ao Lama Padma Samten e a todos que também estavam nesse retiro aberto de 4 dias no coração de São Paulo.

5h30. Joelhos lacrimejam. Sono. Muito sono. Torpor. Mais de 30 pessoas na sala. Não há música new age de fundo, não há mantras. Nem incenso nem movimentos tântricos. Há o tédio supremo (com trilha sonora do trânsito de São Paulo). No folder de divulgação não me lembro de ter visto alguma promessa de diversão ou garantia de transformação. Pelos menos não fui enganado.

Por que mesmo estou aqui? Porque eu tenho um blog de relacionamentos e seria bom eu saber, pelo menos um pouco, do que estou falando… Não. Porque eu tenho a motivação de trazer benefícios aos seres… Não. O que mesmo são “os seres”? Eu só conheço a Paula, o Bruno, a Fernanda, a Malu, a Juliana, a Mariana e mais alguns poucos. O que mesmo são benefícios? Eu só tento compartilhar o silêncio, comprar verduras, pagar as contas, tirar o lixo, não ser tão orgulhoso, invejoso, preguiçoso e, de novo, silenciar junto. Eu só sei fazer isso, não faço idéia do que sejam “benefícios”.

Por que mesmo estou aqui? Ah, sim, porque eu sofro e me debato contra a vida, porque muitas vezes quero outra coisa que não o presente, porque acho que algumas coisas são de fato permanentes e porque alguns de meus movimentos na vida machucam pessoas queridas. Estou aqui porque faço gente sofrer, mesmo (ou principalmente) quando não quero.

OK, vamos seguir as instruções. Focar na respiração e lentamente focar a energia do corpo. Quando fico torto e quase dormindo, quando me alinho e fico excitado, quando surge raiva ou ansiedade. Todas as variações de ânimo, de ventos internos. Porém, eu sequer sei o que é essa tal “energia”. Eu sequer tenho consciência dessas variações sutis internas. Em vez de movê-las, sou arrastado por elas, sou refém, presa fácil. É aí que estou: no ponto de perceber que não consigo nem seguir a instrução de meditar, no ponto de olhar em detalhe minha cegueira em relação a tudo o que vive dentro de mim.

E pensar que essa é só a primeira instrução! A segunda abandona o foco e se abre aos estímulos sensoriais, wide open, 360 graus. Outra, mais adiante, repousa na base não-construída dos fenômenos. Até que a meditação final vê cada detalhe como a perfeita manifestação da realidade última, além de vida e morte, além de espaço e tempo. É dessa visão que surgem os hai-kais:

silencioso lago
o sapo salta
tchá

(Carlos Verçosa, em Oku: viajando com Bashô)

Os olhos tem de ficar semi-cerrados ou abertos. Estou de olhos abertos agora. Estou vendo as costas desta mulher, ela não é bonita, eu acho que já a vi em outra ocasião, será que eu lembro o nome dela? Não lembro, mas a do lado, que eu não vejo, é a Luciana. Eu consigo sentir seu perfume, minha irmã usava a mesma marca, eu lembro bem daquele dia quando nós… Eu ainda estou de olhos abertos? Não sei, vou tentar abrir os olhos: se conseguir, é porque não estava. É, eu abri e agora é nítido. Estava sonhando.

Incrível. Não só que meus olhos se fechem sem que eu perceba, mas que minha mente siga vendo coisas exteriores como se estivessem lá fora. Minha mente segue reagindo a impulsos e pensamentos, eu sigo pulando de um mundo a outro, igual faço com sites na Internet, com abas no Firefox, com emails. Eu sou levado, eu não tenho controle algum de meu destino. Será que é por isso que, sem querer, muitas vezes acabo chutando e pisando nos outros? Talvez seja esse mesmo automatismo que muitas vezes me leve para locais onde eu não queria ir.

O sono é denso e todo-abrangente. Eu não consigo me livrar. Arranho minha própria mão, finco as unhas no braço, abro bem os olhos. Tudo para não dormir. Meu corpo treme, meu metabolismo diminui, sinto frio, choques e um calor que parece que pesa. Tudo em vão, quando me dou conta, abro os olhos: dormi de novo. Dessa vez, acordo com a certeza de que os últimos 3 meses de minha vida foram idênticos a essa longa piscada. Eu fiquei dormindo, sonolento, dormente. Eu não lembro de ter respirado, de ter sorrido abertamente, de ter olhado fundo nos olhos de alguém. Sim, a meditação apenas explicita – por condensar e intensificar – um movimento que acontece a todo tempo em meu cotidiano.

O sono é sólido, concreto. A dor arrebata e me envolve até transformar a sala inteira em um grande incômodo. A pedra no sapato se torna 100% da realidade. O mundo inteiro não passa de um joelho latejante. É inescapável. Até que lembro de minha própria morte ou me vem à mente cenas da última noite de sexo ou o lama fala “Meditar é praticar liberdade” e eu me alinho inteiro. Cadê o sono e a dor? Cadê aquilo que era tão concreto, existente, real? O que mesmo estava me aprisionando? Não pode ter sido só uma nuvem onírica! Não é possível que eu tenha passado alguns bons minutos sofrendo só por causa de uma maldita névoa. De novo, não foi só agora. Venho fazendo isso a vida inteira. Os minutos são meses, anos. Dou solidez ao que surge e então, de uma hora para outra, não vejo mais saídas. A claustrofobia do sofrimento quase sempre me faz pensar em me matar. E sigo na montanha-russa, do êxtase ao suicídio, da abertura ao fechamento total, da leveza ao peso insustentável.

Um passarinho canta ao longe, sorrio por dentro. A caixa de som pega interferência de uma rádio, me irrito, me debato, quero levantar e ir embora. Olho a gostosa do outro lado da sala, me encho de tesão. Ouço o gordo de trás espirrar, fico preocupado com a situação de minha blusa. Lembro da última briga, entro em depressão. Objetos, seres e situações exteriores movem minha energia interior. Sou refém de tudo e de todos.

Fico com o outro porque ele me faz sentir de um jeito que me sinto só com ele. E então o abraço e não quero soltar, não quero parar de sentir essa coisa gostosa que vem não sei de onde. Preciso de pessoas e objetos, preciso de sites, livros, chocolates, filmes, músicas, dinheiro, sexo, olhares, festas, momentos, férias, trabalho, elogios, sorrisos. Para cada um de meus 8.457 estados de felicidade, preciso de um elemento exterior correspondente. Meu coração só bate quando ativado, fisgado por alguém. Meu pulmão só funciona quando inflado por uma bomba. Só ando quando me carregam.

Sofro porque sou incapaz de direcionar minha própria energia, de construir meus estados de ânimos, de reconhecer que sou o criador de tudo o que surge dentro de mim. Depois de analisar todos os estados da alma, é isso que Espinosa conclui na quinta parte de sua Ética. O tema é justamente esse: a liberdade humana. Assim como Nietzsche ou qualquer mestre budista, Espinosa não vê a liberdade como a cessação do desejo. Para ele, o controle dos desejos não produz liberdade. Pelo contrário, é a liberdade que leva à capacidade de responder ou não ao que surge, de direcionar a ação de modo autônomo. Ora, a potência de viver é justamente aquilo que não consegue se expandir plenamente no processo reativo condicionado. A alegria, o regozijo, o desejo vivido, só é possível na liberdade, na ação. Meditantes, em vez de apáticos e desconectados, tendem a ser mais desejantes, vivos e apaixonados por tudo e por todos.

Embora eu não acredite em preces, começo a rezar para que o lama toque logo o sino e ponha fim na minha tortura. Será que já se passaram os malditos 30 minutos? Comecei na respiração, dentro e fora, enchendo e esvaziando, só observando, sem forçar, e agora estou ofegante, cansado, pensando nos postulados espinosanos, nas aulas de filosofia e no texto que vou produzir para o blog. Ainda não sei se meus olhos estão fechados. Tomara que isso acabe logo.

5h31.


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